Eu sempre leio a coluna do Arthur Xexéo. Faço parte de seu seleto grupo de 12 leitores... rs. Daí um dia resolvi responder e escrevi esse big texto, de um fôlego só. Abaixo do texto tem a resposta dele.
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Caro Arthur Xexéo,
Creio que a sua reflexão sobre o filme “Tropa de Elite” corresponde, na verdade, ao que deveríamos estar de fato pensando ao falar do filme: o que nos transformou em pessoas que aplaudem no cinema a polícia batendo/ torturando e matando traficantes e outros.
Sou aluna do curso de Mestrado do Instituto de Medicina Social da UERJ, e em uma das disciplinas aprendemos sobre o Estado de exceção.
O Estado de Exceção é um conceito amplamente discutido por um filósofo italiano chamado Giorgio Agamben. Fica muito difícil tentar falar sobre esse assunto de forma resumida, mas vamos lá.
Agamben, em seu livro Homo Sacer tem como ponto central a vida nua, a vida do Homo Sacer ( Sacer = sagrado) que pode ser morto, mas não sacrificado. A partir do momento em que se instituiu que a vida era sagrada, começou-se a matar em nome disso. Cria-se a categoria do “inimigo”, que transforma o cidadão em bandido, terrorista, categoria essa que transforma o indivíduo em um ser inominável, e autoriza o Estado de exceção, no qual a exceção torna-se a regra e legitima que determinadas práticas sejam executadas em nome de uma bem maior. Em nome da proteção da sociedade, então, a tortura se justificaria. Temos como exemplo claro disso, mas muito pouco discutido (em jornais, revistas e televisão), a prisão de Guantánamo, em Cuba. Os presos ali não desfrutam dos direitos internacionais assegurados pela convenção de Genebra. Podem ser mantidos presos sem julgamento e submetidos a práticas abusivas de interrogatório se assim acharem necessário.
O que acontece com o surgimento do filme “Tropa de Elite” é o desvelamento do Estado de Exceção no Rio de Janeiro, representado neste através do BOPE. E representado em nós através da vontade irresistível que nos assola de ver um filme em que existe uma “polícia que funciona de fato”. Sabemos de que forma tudo deveria acontecer: mais educação, mais emprego, honestidade, punição digna para quem deve ser punido. Mas o sistema penal é totalmente falido – já se sabe que as prisões não ajudam o indivíduo a voltar em condições de sobreviver em nossa sociedade. Sabemos que a violência no Rio de Janeiro tem se tornado cada vez mais brutal. Sabemos que a polícia entra em conivência com crime por N motivos. Sabemos que temos medo da polícia por N motivos. Sabemos que a polícia tem medo e às vezes é obrigada a ser conivente. Já sabemos, inclusive, que manifestações de “Basta!” são uma piada, além de não provocarem nenhum impacto, só servem para mostrar o quanto a classe média ainda está desimplicada de algum processo possível de mudança prático. Diante de tudo isso, é mais fácil entender que se abra um estado de exceção no Rio, no qual ao BOPE se autorize fazer tudo aquilo que não é permitido a outros representantes da lei.
Escrevi isso muito rápido, pode ser que eu tenha me equivocado em alguma coisa, porém acredito que seja necessário que pensemos de que forma determinados discursos estão sendo produzidos atualmente. Para alguns pode parecer estranho dizer isso, mas o meu direito de viver, não pode se sobrepor ao direito de viver do outro. Se começarmos a agir e aceitar que a vida humana seja constrangida dessa forma, nos tornaremos tão bandidos quanto aqueles pelo quais nos sentimos ameaçados.
Atenciosamente
Vanessa Xisto
Resposta do Arthur Xexéo: Muito interessante Vanessa.
Eu: ah tá, brigado.
(Minha resposta foi em pensamento. Depois disso negligenciei uma coluna ou ...dez, sei lá).
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